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O MANUAL DE PORTUGUÊS: CAMINHOS DE INOVAÇÃO – 2
Inserido em 2010-03-22  |  Adicionar Comentário
Iniciámos no post anterior uma reflexão sobre a inovação nos manuais escolares. Referimos então o livro de Maria de Lourdes da Trindade Dionísio A Construção Escolar de Comunidades de Leitores – Leituras do Manual de Português, Coimbra, Almedina, 2000. Trata-se de um trabalho de investigação sobre manuais escolares de Português de 7.º ano de escolaridade em vigor no ano lectivo de 1992-1993. Apesar da distância, entendemos que as conclusões a que chegou a investigadora se mantêm actuais.

Algumas conclusões:

1. O peso da tradição na elaboração os manuais escolares é muito forte - p. 397.

2. Apesar da continuidade referida, há um domínio no qual os manuais escolares investem bem mais do que no passado: o da leitura, com «práticas pedagógicas» muito reguladas –
p. 398.

3. Esta regulação consiste basicamente na «pré-determinação» dos sentidos, concretizada em «enquadradores» muito presentes à volta dos textos e fortemente condicionadores da abertura interpretativa tanto dos alunos como até dos professores – p. 398.

Por isso, no Prefácio que escreveu para esta obra, Ruy Vieira de Castro pôde afirmar que «os manuais escolares constituem hoje um dispositivo profundamente repressivo. Repressivo relativamente aos leitores/alunos porquanto os esquemas de leitura aí dominantes são fortemente caracterizados pela exclusão do leitor e pela imposição dos sentidos» - p. 8.

Entendemos serem justas estas posições. Veja-se o que se passa, por exemplo, com a poesia lírica. Os poemas são, frequentemente, hoje, escoltados por afirmações do tipo
«O sujeito poético afirma…», ou «Na terceira estrofe diz-se que…», ou «Para o poeta… Comprova-o através de expressões do texto». Não seria melhor o percurso inverso: partir das palavras do poema para descobrir sentidos? Ou não será verdade que, como escreveu Rimbaud, o poema significa «literalmente e em todos os sentidos?» E como podem ter os jovens leitores esse «papel activo» que Ruy Belo queria para os leitores de poesia, condicionados como estão por sentidos por outros impostos?

Pronuncie-se sobre estas questões tendo como horizonte a entrada em vigor do novo programa de Português para o Ensino Básico que chama a atenção para o papel dos alunos como construtores de sentidos – p. 103.

Sobre como ler e ensinar a ler – bem – poesia, deixamos aqui a sugestão de um livro fundamental: de Jean-Michel Adam, Pour Lire le Poème, Bruxelles, De Boeck-Duculot, 1986.

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A Equipa

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A poesia dá voz às emoções e o registo expressivo de sentimentos e motivações necessita de uma abordagem emotiva prévia. É preciso "sentir" as vidas dos textos, projectar sentires, dramatizar vozes e gestos. Sem este "ambiente" o texto é "apenas" um conjunto de palavras cuja beleza poderá permanecer indiferente a alguns olhares e sensibilidades. Um texto de Ruy Belo tem uma melodia própria, bem como uma Ode de Álvaro de Campos. É imperativo dar corpo a energias diferentes, exprimir os excessos, a cadência alucinada dos "ismos", as interrogações da alma... É igualmente imperativo criar momentos de criação poética, a solo ou em colectivo. A produção veicula a compreensão do texto do outro, das suas motivações, das tensões da sua escrita e a entidade criadora não surgirá como uma abstracção impossível de apreender. A leitura de poemas de vários autores, de vários períodos, de várias famílias literárias, ajuda a criar um mapa de expressão poética que, a seu tempo, permitirá a intertextualidade e enriquecerá a análise do texto.