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AS IMPLICATURAS CONVERSACIONAIS
Inserido em 2010-05-03  |  Adicionar Comentário
John Guthrie, 'Absolute Abstraction' at Goldman
As regras (“máximas”) inscritas no princípio da cooperação permitem que uma conversa decorra normalmente mesmo quando é necessário a um dos interlocutores deduzir significados das palavras do outro, fazer inferências ou perceber outras implicações lógicas vulgares das palavras trocadas, como acontece em inúmeras situações.

Por exemplo, se eu perguntar ao meu interlocutor “Que tempo faz aí em Paris?” e ele me responder “Isto está cada vez mais cinzento”, o conhecimento que ambos partilhamos da linguagem com que habitualmente nos referimos ao tempo permite-me inferir que em Paris está prestes a chover, apesar das suas palavras não terem sido essas. Porém, dessa frase poderei inferir um sentido completamente diferente se a nossa conversa incidir sobre a situação económico-financeira do meu interlocutor.

Refaçamos o diálogo:

- Então, diz-me lá como vais de finanças?
- Isto está cada vez mais cinzento.

Como se percebe, não poderei, neste contexto, inferir outra coisa senão que o meu interlocutor está a ficar sem dinheiro. Mesmo que ele o não tenha dito expressamente, eu sei que aquilo que inferi (que está ficar sem dinheiro) foi o mesmo que ele quis dizer. Respeitamos, portanto, o princípio da cooperação.

No entanto, há situações de comunicação em que um dos locutores pode dar às suas palavras uma intencionalidade comunicativa que, desrespeitando o princípio da cooperação, não parece que o tenha feito, isto é, que aquilo que disse seja diferente daquilo que efectivamente pretende que o seu interlocutor perceba. Sempre que tal acontece, estamos na presença de uma implicatura conversacional resultante da quebra da máxima da qualidade “sê verdadeiro”. Segundo Colin McGinn1 é a preferida dos políticos quando querem atacar um adversário sem parecer que o fazem.

Imagine-se o diálogo, algures em Marte:

Jornalista para político A - Acha que o político B deve abandonar o governo depois de ter sido acusado de corrupção?
Político A: O que lhe digo a esse respeito é que o planeta tem de ser governado por políticos acima de qualquer suspeita, por gente em quem os marcianos confiem e em quem vejam exemplos de honradez e probidade. Além disso, este é um assunto que diz respeito à justiça e não seria correcto pronunciar-me sobre casos que estejam sobre a alçada dos tribunais que, do meu ponto de vista, devem punir com severidade todos aqueles que prevaricam.
Jornalista – Isto quer dizer que o senhor acha que ele deve sair do governo…
Político (ofendido) – Eu nunca disse que o político B deveria sair do governo! Não coloque na minha boca palavras que nunca proferi! O que eu disse, e repito, é que não se deve misturar política com justiça e que só a esta compete punir os prevaricadores. Jamais me referi ao senhor político B!

Como se pode ver, o significado que o jornalista pode inferir das palavras do político A (o político A acha que o B deve abandonar o governo) não lhe é autorizado pelo político A, porque, de facto, não disse o que o jornalista infere. No entanto, todos nós percebemos que, embora o político A não tenha dito que o político B devesse sair do governo, a intenção com que o disse (o que quis dizer) mostra que foi isso mesmo que ele quis que percebêssemos.

As implicaturas conversacionais ocorrem ainda em situações em que outras “máximas” são desrespeitadas, o que pode provocar situações embaraçosas ou hilariantes. As anedotas são o que melhor ilustra o que dissemos, apesar de muitas delas veicularem ideias preconceituosas.

Considere-se a seguinte situação de comunicação, num café (restaurante, bar, etc):

Uma loira aproxima-se do empregado que está ocupado no balcão e pergunta-lhe ao ouvido direito:
- Diga-me, por favor, onde é a casa de banho.
O empregado responde com um movimento de cabeça:
- Do lado esquerdo.
A loira aproxima-se do ouvido esquerdo e pergunta de novo:
- Onde é a casa de banho?

A implicatura conversacional resulta aqui da inexistência de um conhecimento partilhado (ambiguidade semântica) relativamente à expressão “do outro lado”. De resto, é esta mesma ambiguidade, aliada a contextos marcados por estereótipos (a “distracção” das loiras, a pretensa lentidão dos alentejanos, a esperteza saloia e outras do mesmo jaez) que alimentam a maioria das anedotas que por aí circulam. Outras há, no entanto, que servindo-se desta mesma ambiguidade o fazem através da “confusão” entre actos de fala. Como nesta:

Um amigo observa para outro:
- Vai chover. (assertivo)
O outro responde:
- Vai tu! (directivo)
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1- McGINN, Colin (2007), Como se Faz um Filósofo, Lisboa, Bizâncio , pág.152.

Poderá visualizar, em anexo, um ficheiro referente aos princípios reguladores da interacção discursiva.

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A Equipa

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As noções pragmáticas da língua suscitam grande interesse nos alunos, principalmente porque estas se mostram essenciais na compreensão dos diferentes enunciados. Os exemplos apresentados são claros e ajudam a abordar as diferentes noções neste domínio.