Isabel Margarida Duarte, «O Português, na escola, hoje», NOESIS, 59, Julho/Setembro de 2001, pp. 20 e seguintes – sobre o modelo vigente da aula de Português o papel do manual escolar.
Excerto:
«A maior parte das aulas de Língua Portuguesa corresponde a um padrão (…) que deveria mudar, eventualmente, com mais e melhor formação (inicial e contínua).
O padrão da aula de Português que há que alterar pode resumir-se assim:
1.há um texto que se lê mais ou menos (e depende do que se entende por ler…);
2.e depois, utilizando os manuais (que, infelizmente, são o material de eleição e, às vezes, o único utilizado na aula de Português);
3.o professor faz umas perguntas que não chegam a ser de interpretação: são umas paráfrases, são meras perguntas de compreensão (e, frequentemente, são «esotéricas», nem sequer se entendem);
4.para depois passar à identificação de uma figuras de estilo, que ficam desgarradas do sentido do texto;
5.e, em certos casos, pede-se aos alunos que façam alguma classificação morfológica das palavras.
Esta aula-tipo corresponde a uma prática muito enraizada e da qual tem resultado um produto não muito feliz.
Isto não é só a minha impressão (embora esteja sedimentada por muitos anos de observação de aulas).»
José António Brandão Carvalho, ESCRITA – PERCURSOS DE INVESTIGAÇÃO, Braga, DME/IEP, Universidade do Minho, 2003 – sobre a sobreposição do manual escolar aos programas e o tratamento estanque das diversas competências na aula de Português.
Excerto:
«Com frequência, as actividades de leitura são ponto de partida para a análise de questões do âmbito do funcionamento da língua. Contudo, o tratamento destes dois domínios não é normalmente feito de modo articulado, na linha do que os programas pedagógicos propõem. Na maioria dos casos, a abordagem de um aspecto gramatical não se faz a partir da análise do modo como esse aspecto funciona no texto, mas tão-somente a partir da mera verificação da sua ocorrência no mesmo».
João Costa, «Conhecimento gramatical à saída do Ensino Secundário: estado actual e consequências na relação com a leitura, escrita e oralidade», in ACTAS – CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE O ENSINO DO PORTUGUÊS, Lisboa, DGIDC / ME, 2008 – sobre o ensino da gramática não articulado com o trabalho das diversas competências na aula de Português.
Excertos:
«Chego, finalmente, ao aspecto que me parece fundamental: a aplicabilidade do conhecimento gramatical. Parece-me que um dos aspectos que tem prejudicado o ensino da gramática é o facto de esta ser, muitas vezes, ensinada sem serem exploradas as suas potencialidades para um bom domínio do português oral e escrito. A gramática tem sido, por vezes, tratada como um compartimento estanque, sem relação com o trabalho de leitura, escrita, compreensão e expressão oral. Assim sendo, pode ser encarada como um conteúdo que até pode ter interesse, mas cuja utilidade é nula. Se as estratégias de ensino forem alteradas de forma a articular o ensino da gramática com o desenvolvimento das outras competências, parece-me que se poderão obter resultados bastante benéficos para o ensino do português em todas as suas vertentes.»
«A aplicabilidade do conhecimento gramatical é fundamental para o seu desenvolvimento. Como tal, importa repensar metodologias de ensino (e materiais de apoio) para que a gramática não seja o ‘apêndice’ da disciplina de Português, mas uma componente tão nuclear como as outras».